O poema “Retrato”, de Cecília Meireles, toca numa experiência essencialmente humana: o espanto diante do tempo. Em algum momento da vida, quase todo mundo olha para si e percebe mudanças que não aconteceram apenas no rosto.
A vida vai deixando marcas invisíveis: algumas vêm das perdas, outras das responsabilidades, outras das despedidas silenciosas que ninguém percebeu. Quando ela escreve: “Eu não tinha este rosto de hoje”, ela não está falando apenas da aparência, está falando da pessoa que foi sendo construída pelas alegrias e pelos atravessamentos da vida.
Existe uma melancolia bonita no poema, porque mostra que o tempo não pede autorização, ele simplesmente vai passando. Mas o texto também provoca outra reflexão importante. Apesar das mudanças, seguimos tentando nos reconhecer. Seguimos procurando, dentro dessa correria da vida, alguma ligação entre quem fomos e quem somos agora.