Após um hiato de quatro anos, a cantora e compositora norte-americana Lizzo está de volta aos holofotes com o lançamento de seu novo álbum, intitulado “Bitch”. O projeto de 12 faixas chega como um manifesto de resgate de sua narrativa pessoal e identidade artística, misturando o consagrado som R&B, hip-hop e pop da artista a novas texturas como o go-go music, synth-funk e jazz.
Em uma entrevista concedida ao jornal USA Today, a artista de 38 anos deixou claro que o trabalho não se trata de uma reinvenção. “Não acho que preciso me redefinir. Acho que se trata de recuperar quem eu sou”, desabafou Lizzo. “Grande parte da minha identidade foi manipulada por pessoas de fora, então este álbum sou eu pegando isso de volta”.
O conceito por trás de ‘Bitch’ e a resposta às críticas
O título audacioso do álbum reflete um posicionamento combativo frente ao cenário atual. À reportagem do USA Today, Lizzo revelou que a mudança do título original (que seria “Love in Real Life”) para “Bitch” foi intencional para espelhar um mundo em constante conflito psicológico e político.
A escolha do termo também carrega uma forte bagagem de representatividade e resposta ao preconceito. A cantora mencionou ter sido inspirada por piadas de teor hostil que miravam sua imagem na internet.
“Deus nos livre de ter um dia ruim ou de não ser arco-íris e sol radiante um dia. Você será crucificada, especialmente como uma mulher negra nesta indústria e na sociedade”, pontuou. Musicalmente, essa resposta ganha corpo na faixa-título através de uma colagem sonora que une samples de Missy Elliott (“She’s a Bitch”) e interpolações de Meredith Brooks (“Bitch”).
Apesar da carga dramática e dos desabafos presentes em faixas como “Toast”, o álbum não perde o humor característico de Lizzo, evidente na cômica “Whose Hair Is This?”, música inspirada em um momento real de pânico em que a cantora achou que havia encontrado cabelo de outra pessoa em sua casa, descobrindo depois que pertencia a uma de suas próprias perucas.
Saúde mental, flauta clássica e novos horizontes
O processo de composição de “Bitch” funcionou também como uma ferramenta terapêutica para a artista, que enfrentou um período de profunda depressão nos últimos anos. Sobre a criação da faixa “Happy to Be”, ela explicou sua dinâmica emocional: “Eu não escrevo músicas felizes quando estou feliz. Eu escrevo músicas felizes quando estou tentando ser feliz. Escrevi essa música quando estava buscando gratidão”.
Outro grande destaque do disco é a presença marcante da flauta transversal, instrumento de formação clássica da cantora, que ganha os holofotes na faixa de jazz “Too Nice”. A paixão pelo instrumento irá além das plataformas de streaming: Lizzo anunciou o lançamento de seu primeiro livro infantil para o dia 8 de setembro, intitulado “Lil Lizzo Meets Sasha B. Flootin’”, focado em incentivar o amor das crianças pela música.
Evolução e limites no ambiente digital
Demonstrando maior maturidade de mercado e inteligência emocional, Lizzo confessou estar muito mais protetora em relação à sua privacidade e exposição nas redes sociais, estabelecendo limites claros e filtrando o que compartilha com o público.
Ao ser questionada sobre as transformações do movimento body positivity, do qual foi uma das principais embaixadoras, a cantora explicou que sua visão evoluiu antes mesmo de seu próprio corpo mudar. Ela criticou o esvaziamento do conceito original pela mídia de massa.
“A positividade corporal originalmente significava ‘nós merecemos existir’, especialmente para pessoas que foram apagadas da mídia e da cultura, [como as comunidades PCD, plus-size, indígenas, queer e trans]. Mas as pessoas mudaram essa definição. Então, eu não assino a nova versão”.
Com apresentações recentes mais intimistas em clubes de jazz, formato que adotou para resgatar a liberdade e o contato caloroso com a plateia, Lizzo reforçou que construiu sua base de fãs na estrada ao longo de uma década, diferenciando-se do fenômeno de artistas que viralizam no TikTok e pulam etapas direto para arenas. “Bitch” busca consolidar a postura de uma showwoman disposta a defender seu espaço e sua história na música global.