Sonhar é uma das formas mais bonitas de resistir ao achatamento da vida. Quem sonha recusa a ideia de que o presente esgota todas as possibilidades. Imagina outro caminho, outra casa, outro trabalho, outra forma de amar, outra maneira de existir neste mundo. Mas existe um ponto delicado: às vezes, o sonho deixa de ser movimento e vira esconderijo.
A pessoa sonha tanto com a vida que gostaria de ter que começa a abandonar a vida que está acontecendo. Espera o momento ideal, a coragem perfeita, a oportunidade completa, a versão mais preparada de si mesma. A vida, no entanto, raramente se apresenta organizada. Ela vem misturada com medo, boleto, atraso, notícia ruim, dores, pequenas alegrias, conversas interrompidas, cansaço e imprevistos.
Quem espera tudo ficar bonito para começar pode passar anos ensaiando uma estreia que nunca chega. O sonho precisa tocar o chão, pôr o pé no chão. Precisa virar gesto, tentativa, conversa, escolha, renúncia, movimento. Alguns sonhos mudam de forma, é natural. Outros perdem o sentido, e outros ainda nascem tarde.
E há sonhos que só aparecem quando a gente começa a viver com mais presença a vida possível.