Tem gente que anda cansada sem conseguir dizer exatamente do quê. Não aconteceu uma tragédia específica, ninguém foi embora ontem; não existe necessariamente um motivo evidente. Mesmo assim, alguma coisa parece permanentemente fora do lugar. A pessoa tenta organizar os dias, cumprir os compromissos, participar das conversas, mas sente como se estivesse vivendo alguns centímetros distante de si mesma.
E, com isso, a vida acontece: o tempo passando rápido, relações que esfriaram sem explicação, sonhos antigos que perderam sentido, uma sensação estranha de desencontro com a própria trajetória. Nada disso costuma aparecer em exames ou fotografias. O poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu em “José”: “E agora, José? / A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou”.
O poema não fala apenas de dúvida; ele fala daquele momento em que alguém continua seguindo adiante sem conseguir reconhecer direito o próprio caminho. José é um homem preso à sua rotina, às suas obrigações, afogado em questões existenciais que o angustiam. Ele faz parte da máquina, das engrenagens do sistema, tendo que continuar suas ações cotidianas como um soldado em suas batalhas diárias. E você? Onde você se encontra agora em meio a essa engrenagem?