A cineasta Helena Solberg, homenageada da CineOP 2026, relembrou as dificuldades enfrentadas durante a produção de “A Entrevista” (1966), considerado um marco do cinema feminista brasileiro, e refletiu sobre as transformações no fazer cinematográfico ao longo das últimas décadas, durante bate-papo nesta sexta-feira (26/6), no Centro de Artes e Convenções de Ouro Preto.
Ao recordar a produção de seu primeiro filme, Helena destacou que as entrevistas precisavam ser realizadas em ambientes fechados devido à sensibilidade dos temas abordados na época. “Muitas vezes a gente fazia essas entrevistas nos quartos de porta fechada. Foi muito curioso sentir essa tensão já quando você ia abordar certos assuntos”, afirmou.
Segundo a diretora, apesar das mudanças tecnológicas que transformaram profundamente a produção audiovisual, alguns desafios permanecem essenciais para quem faz cinema. Para ela, a chegada do digital facilitou o processo de filmagem, mas trouxe novos obstáculos para a construção narrativa.
“A linguagem talvez tenha mudado por causa do digital. Hoje se filma muito mais. Antes tínhamos que filmar com muito mais cuidado porque era negativo e custava muito. Hoje filma-se, filma-se, filma-se e deixa os montadores enlouquecidos porque tem coisa demais e foco de menos”, comentou.
Helena Solberg também destaca que manter o foco durante a realização de um filme continua sendo uma das tarefas mais importantes do processo criativo. Mesmo quando o cineasta enfrenta momentos de dúvida, ela acredita que essas incertezas fazem parte da construção da obra.
“Você pode estar fazendo um filme e, de repente, se sentir totalmente perdido. Mas é muito importante estar aberto para ser transformado pelo assunto que você achava que conhecia e descobrir que existe muito mais além daquilo”, reflete.
As declarações dialogam diretamente com o tema da CineOP 2026, que nesta edição propõe a reflexão “Um país existe nas imagens que preserva”. Reconhecida como o principal evento brasileiro dedicado à preservação, história e educação audiovisual, a mostra reúne, até a próxima terça-feira (30/6) cineastas, pesquisadores, estudantes e profissionais do setor em uma extensa programação gratuita.
Realizada em Ouro Preto, a CineOP 2026 exibe 139 filmes, entre longas, médias e curtas-metragens, distribuídos em mostras temáticas, sessões especiais, pré-estreias nacionais e exibições ao ar livre. A programação também inclui debates, oficinas, masterclasses, encontros profissionais, lançamentos de livros, exposições e atividades formativas.
Homenageada desta edição, Helena Solberg recebeu o Troféu Vila Rica e tem parte de sua filmografia exibida durante o festival. Entre os títulos estão “A Entrevista” (1966), “Meio-Dia” (1970) e o documentário “Carmen Miranda: Bananas Is My Business” (1995), obras que marcaram sua trajetória como uma das pioneiras da direção cinematográfica feminina no Brasil.