
O mercado de trabalho vive uma epidemia silenciosa, onde o esgotamento não é mais uma fraqueza individual, mas o sintoma de um sistema doente. Com o Brasil ocupando o segundo lugar no ranking global de casos de burnout, o mais recente episódio do Conecta Mente mergulhou fundo nos riscos psicossociais das organizações. Paulo Leite e Fernando Cardoso receberam o Dr. Pablo Vinícius, psiquiatra e mestre em neurociências, para destrinchar a sociedade do cansaço e como as empresas estão pagando caro por ignorar a saúde mental de seus colaboradores.
A ilusão da alta performance e a privação de sono
A busca incessante por produtividade tem um preço biológico altíssimo. O Dr. Pablo Vinícius foi enfático ao criticar o conceito moderno de “alta performance”, que muitas vezes é romantizado nas redes sociais. Segundo ele, essa pressão constante leva à privação de sono e ao adoecimento.
“Hoje, 75% dos brasileiros não dormem bem“, alertou o psiquiatra. Essa rotina de privação cria indivíduos que acordam todos os dias com o “copo meio vazio”, sem a energia necessária para reparar os desgastes do dia anterior, culminando inevitavelmente no burnout. O esgotamento deixou de ser uma exceção para se tornar a regra em ambientes de extrema pressão.
O rombo financeiro do presenteísmo
Um dos momentos mais reveladores do programa foi a discussão sobre o presenteísmo — quando o funcionário está fisicamente no trabalho, mas sua capacidade cognitiva e produtiva despencam devido ao estresse ou noites mal dormidas.
O especialista destacou que cerca de 30% da força de trabalho brasileira opera nesse estado. O impacto econômico é avassalador: estima-se uma perda de 2 a 3 bilhões de reais no PIB devido a esse fenômeno. Mais alarmante ainda para os gestores é o fato de que um funcionário em presenteísmo custa até quatro vezes mais para a empresa do que aquele que está formalmente afastado (absenteísmo), já que ele consome recursos, comete erros e compromete o clima da equipe sem entregar resultados.
Vulnerabilidade feminina e o choque geracional
A conversa também abordou as nuances de gênero e idade no adoecimento mental. As mulheres são as mais afetadas pela exaustão, representando 63% dos afastamentos previdenciários por transtornos mentais. O psiquiatra explicou que a soma da jornada dupla (ou tripla) com as variações hormonais cria um estado biológico e social de maior vulnerabilidade, exigindo um olhar mais empático e estratégico das organizações.
Ao mesmo tempo, o mercado lida com um choque geracional. Se por um lado as novas gerações parecem ter menos resiliência para lidar com frustrações, por outro, elas se recusam a aceitar as condições de trabalho adoecedoras que as gerações anteriores naturalizaram.
NR1: A saúde mental agora é lei
A inovação na gestão de pessoas não é mais uma escolha, é uma obrigação legal. Com a recente atualização da Norma Regulamentadora 1 (NR1), as empresas passaram a ser responsáveis não apenas pela segurança física de seus funcionários, mas também por gerenciar os riscos psicossociais. O Dr. Pablo encerrou reforçando que as organizações precisam deixar de ser meros “clubes sociais” e assumir a responsabilidade de promover ativamente a saúde mental, equilibrando sucesso e bem-estar.
Conecta Mente
O Conecta Mente é apresentado por Paulo Leite e conta com a participação de Fernando Cardoso. O programa vai ao ar toda terça-feira, às 09h, na CDL FM. O episódio completo está disponível no canal do YouTube Multiprosa.