A vida continua exatamente como antes para o resto do mundo, mas não é a mesma para quem vive um luto. Os ônibus passam no horário, as pessoas conversam nas padarias, o trânsito reclama das mesmas buzinas e a cidade segue seu curso com uma naturalidade quase desconcertante.
Quem perdeu alguém percebe que, dentro de si, deixou de acompanhar esse ritmo. Há um silêncio que aparece no meio do dia. Não é necessariamente choro; muitas vezes é apenas uma pausa estranha diante de um objeto, de um lugar ou de uma lembrança que chega sem aviso. Um copo guardado no armário, uma música que começa a tocar no rádio ou um lugar onde vocês costumavam ir juntos. E o cheiro do perfume, então?
O compositor Chico Buarque, na canção “Pedaço de Mim”, uma das mais tristes que já ouvi, encontrou uma imagem muito forte para isso ao escrever: “A saudade é o revés de um parto”. A frase impressiona porque revela duas coisas ao mesmo tempo: a dor, mas também o nascimento. Algo foi arrancado, mas algo também permanece vivo. O luto, no fundo, é isso: a prova de que um vínculo existiu de verdade.