
O Conecta Mente desta semana abriu um espaço raramente ocupado com tanta franqueza no mundo corporativo: a relação direta entre desigualdade racial e perda econômica para o país. Mais do que um debate social, o papo trouxe números, estudos e dados que mostram como o Brasil deixa de crescer — e muito — por não aproveitar plenamente sua própria população.
Com Paulo Leite e Fernando Cardoso na bancada, o convidado desta edição foi Gibson Trindade, pesquisador há mais de quinze anos das relações entre raça e desenvolvimento social, mestre no tema e gerente executivo do Pacto de Promoção da Equidade Racial, uma das iniciativas mais relevantes do país na conexão entre agenda racial e o ambiente corporativo.
Os números que o mercado prefere ignorar
O ponto de partida da conversa foi provocador e necessário: o Brasil tem 56% da sua população composta por pessoas negras, mas apenas 5% dos cargos de diretoria nas empresas são ocupados por esse grupo. Quando a régua desce para a média liderança, o número sobe — mas apenas para 14%. Gibson foi direto ao nomear a causa: o racismo estrutural.
“O racismo estrutural é a base que sustenta aquele edifício. A gente sobrevive numa sociedade que ainda tem costumes atrelados ao nosso modo de vida colonial, que ainda desumaniza as pessoas negras”, explicou o especialista. Para ele, o problema não está na falta de profissionais qualificados — a lei de cotas garantiu acesso à universidade e hoje há um alto índice de profissionais negros graduados e pós-graduados. O problema está nas barreiras que persistem dentro das próprias organizações para barrar a ascensão desses talentos.
Fit cultural: nome elegante para uma barreira antiga
Um dos momentos mais marcantes do programa foi quando Paulo Leite questionou o uso do termo “fit cultural” nos processos seletivos. Gibson não generalizou a intenção de todas as empresas, mas foi preciso ao explicar o mecanismo:
“O racismo vai se adaptando, ele vai se moldando à modernidade. Se lá atrás, há 20 anos, o discurso era que não existiam negros profissionais formados para ocupar posições de liderança, hoje a gente quebrou esse discurso. Mas as empresas, através dessa estrutura racista, também vão se adaptando aos novos mecanismos. Então hoje a gente tem o fit cultural, o teto de vidro, as práticas de washing.”
Segundo Gibson, a resistência corporativa muitas vezes se disfarça de critérios subjetivos justamente para não precisar enfrentar o que é, na prática, uma exclusão estrutural.
Um trilhão de reais desperdiçados por ano
O dado que reposicionou definitivamente o debate do campo social para o campo econômico foi apresentado com precisão: um estudo do Pacto de Promoção da Equidade Racial calculou que R$ 1 trilhão de reais por ano são desperdiçados pela não inclusão de mulheres negras no mercado formal — que representam 28% da população brasileira. Se o cálculo for expandido para os 56% da população negra, o número, nas palavras do próprio Gibson, “é assustador”.
“A gente deixa de tratar a questão racial como algo só social e começa a olhar isso através da limitação do potencial econômico do país”, afirmou o especialista. Para ilustrar o tamanho do impacto, Gibson fez uma pergunta direta ao Fernando Cardoso: se 56% da população brasileira decidisse comprar apenas de empresas com agenda de diversidade real, o que aconteceria com a economia? A resposta foi imediata: “Caiu.”
Diversidade como lucratividade — a linguagem que o mercado entende
Gibson defende que o Pacto tem trabalhado exatamente nessa frente: apresentar a pauta racial através da linguagem do negócio, da matemática, dos indicadores. “Não é um favor investir na agenda de diversidade, equidade e inclusão. Primeiro, é garantir a afinidade com o seu público maior no país. E o outro ponto tá atrelado à inovação. Se você tem grupos mais diversos e plurais dentro do seu quadro, as soluções são mais rápidas, são mais dinâmicas, são mais diversas”, afirmou.
O especialista listou cinco impactos econômicos diretos da desigualdade racial: a redução na qualificação média da força de trabalho pelo acesso desigual à educação; menos profissionais qualificados no mercado formal; desperdício de talentos que poderiam gerar inovação e riqueza; concentração de renda que impede a circulação econômica equânime; e menor mobilidade social, que trava o investimento em educação por famílias historicamente excluídas. O resumo, lapidar: “países com alta desigualdade racial crescem menos porque deixam de aproveitar plenamente sua população economicamente ativa.”
O Pacto reúne hoje 86 grandes empresas numa coalizão que une expertise dos movimentos negros com a abertura corporativa para ações afirmativas e investimento social privado em educação. O número ainda é pequeno diante das 500 maiores empresas do país — mas o caminho está traçado.
Conecta Mente
O Conecta Mente é apresentado por Paulo Leite e conta com a participação de Fernando Cardoso. O programa vai ao ar toda terça-feira, às 09h, na CDL FM.
O episódio completo com Gibson Trindade está disponível no YouTube Multiprosa.