Durante anos, na Romênia, o Estado atravessou a porta mais íntima da vida humana. No regime do ditador Nicolae Ceaușescu, as mulheres foram obrigadas a gerar filhos, mesmo sem condições emocionais, afetivas ou materiais para acolhê-los. O desfecho foi brutal.
Milhares de crianças foram empilhadas em abrigos estatais superlotados. Recebiam comida e roupas, sobreviviam, mas lhes foi negado aquilo que sustenta a vida por dentro: o contato humano, o colo e o olhar que reconhece e confirma a existência do outro. Em muitas instituições, a proporção era de uma educadora para cada 15 ou 20 crianças. Elas cresceram sem toque, sem escuta e sem vínculo; eram corpos vivos com afetos em suspenso.
Quando o cuidado falha nos primeiros anos, as marcas não são visíveis de imediato, mas atravessam o tempo. Estudos científicos posteriores realizados com esses órfãos mostraram que a privação afetiva severa causou alterações físicas no desenvolvimento do cérebro, reduzindo o volume de áreas ligadas à cognição e às emoções. Algo essencial deixou de se organizar e de encontrar chão. O que veio depois não foi uma geração cruel, mas uma geração ferida e com dificuldades de empatia, não por escolha, mas por ausência de humanidade no convívio.
Essa história não fala apenas do passado romeno; ela nos adverte. Não existe sociedade saudável quando o cuidado é substituído por controle. Crianças precisam de mais do que regras, sistemas ou vigilância. Elas precisam de gente, de interação, de respeito e de solidariedade.
