O humanista Michel de Montaigne dizia que os males mais severos e mais frequentes são aqueles que a imaginação insiste em nos apresentar e, quem sabe, por isso sofremos tantas vezes não pelo que de fato acontece, mas pelo que antecipamos, ampliamos e repetimos dentro de nós como se fosse inevitável.
Vivemos numa época em que a mente raramente descansa, projetando cenários futuros, perdas que ainda não chegaram, fracassos que sequer se anunciaram, e, ao fazer isso, transformamos hipóteses em pesos reais, capazes de roubar o presente antes mesmo que o amanhã exista.
A imaginação, que também é fonte de criação, afeto e esperança, quando perde o chão da realidade, passa a fabricar dores que o corpo ainda não sente, mas que o coração já carrega, confundindo prudência com medo e cuidado com paralisia.
Montaigne nos convida a uma forma mais atenta e mais justa de estar no mundo, em que reconhecemos nossos limites de controle e aprendemos a distinguir aquilo que exige ação daquilo que apenas pede confiança, silêncio e tempo.
Amadurecer passa por esse gesto difícil e libertador: não acreditar em tudo o que pensamos e permitir que a vida aconteça antes de ser julgada como insuportável.
