O início de ano costuma provocar esse movimento silencioso de revisão. Estou fazendo uma faxina em casa, abrindo gavetas, separando o que foi acumulado ao longo do ano que terminou e que, na prática, nunca fez falta. Coisas guardadas por hábito, apego ou medo de que possam faltar.
Enquanto faço isso, percebo que a arrumação não fica só nos armários. Ela acontece dentro de mim também. Vou pensando nas gavetas internas que também ficaram desorganizadas. O que precisa ser dispensado, o que pode permanecer. A quem devo agradecer pelo caminho compartilhado, mas seguir sem carregar o peso da presença.
Penso no que realmente vale nessa vida tão passageira, tão efêmera: viajar, conversar com quem é importante, cuidar de mim com mais gentileza, participar da minha comunidade com responsabilidade e, talvez, me importar menos com a opinião alheia.
Também penso na dor, deixando que ela faça o seu trabalho. Sei que, no começo, parece insuportável, mas que o tempo, o cérebro e nossas intenções trabalham juntos e, em algum momento, ela vira memória. Fica a marca, mas já não arde da mesma forma.
