Belo Horizonte tem uma relação curiosa com seus pólos comerciais. A cidade gosta deles quando geram emprego, arrecadam impostos, atraem consumidores e movimentam bairros inteiros. Mas nem sempre parece lembrar dessa importância na hora de decidir o que fazer com as ruas, avenidas, estacionamentos, placas, circulação de veículos e projetos urbanísticos justamente onde esses comerciantes trabalham.
A Avenida Silviano Brandão talvez seja um dos melhores exemplos dessa contradição.
Ali funciona um dos mais tradicionais polos moveleiros de Belo Horizonte, resultado de uma concentração comercial que não nasceu de decreto, planejamento estatal ou consultoria contratada. Surgiu espontaneamente, cresceu e acabou se transformando numa referência que ultrapassa os limites da capital.
Eliana Reis, representante do Polo Moveleiro da Silviano Brandão, dimensionou essa importância em entrevista à CDL FM. Segundo ela, são aproximadamente 4.500 empregos e mais de R$8 milhões em recolhimentos tributários. Ela afirma ainda que a avenida constitui o maior corredor moveleiro da América Latina e o segundo maior corredor de escoamento de móveis do Brasil.
Mas existe uma dimensão menos visível dessa história.
Segundo Eliana, o próprio desenvolvimento da indústria moveleira mineira tem relação com a Silviano Brandão. Fabricantes e marceneiros de cidades do interior passaram a produzir para abastecer as lojas daquele corredor comercial. Alguns desses pequenos fornecedores cresceram e se transformaram em indústrias.
Não estamos falando apenas de uma fileira de lojas. Estamos falando de um ecossistema econômico.
E é justamente por isso que qualquer intervenção pública numa área como essa deveria começar por uma pergunta bastante simples: o que acontecerá com quem trabalha aqui?
Não significa entregar o planejamento urbano aos comerciantes.
Uma cidade precisa pensar em mobilidade, transporte coletivo, segurança viária, acessibilidade, ciclovias, paisagismo e qualidade de vida. O interesse privado não pode se sobrepor automaticamente ao interesse coletivo.
Mas o contrário também não pode acontecer.
Planejamento urbano não pode tratar comércio, emprego e atividade econômica como obstáculos que serão removidos do caminho para que o projeto fique bonito no desenho.
Esse é o ponto central da reclamação feita por Eliana Reis. Ela diz que existem consultas formais, mas questiona a representatividade desses processos. Segundo ela, frequentemente são chamados sindicatos ou representantes institucionais sem que os próprios lojistas sejam efetivamente alcançados.
A frase dela durante a entrevista é dura: “Há uma representatividade que, na realidade, não representa nada.”
Pode-se discordar da generalização. Mas a cobrança é legítima.
Consulta pública não pode ser apenas um rito burocrático destinado a preencher uma casa no formulário antes que uma decisão já tomada seja executada.
Ouvir significa estar disposto a modificar o projeto. Caso contrário, não há diálogo. É um comunicado prévio.
E a Silviano Brandão carrega cicatrizes que ajudam a explicar essa desconfiança.
Eliana lembra intervenções realizadas ao longo das últimas décadas, alterações de circulação e obras que teriam provocado dificuldades de acesso ao comércio. Ela cita especificamente uma intervenção iniciada em 2012 que, segundo seu relato, terminou com o fechamento definitivo de cerca de 30 estabelecimentos.
É um número que merece atenção porque, por trás de cada loja fechada, não existe apenas uma porta de aço abaixada.
Existem empregos, fornecedores, impostos, patrimônio investido e, muitas vezes, uma vida inteira dedicada àquele negócio.
Eliana resume essa visão utilizando uma imagem particularmente feliz: o Polo Moveleiro seria um “arranjo produtivo local espontâneo”.
E completa com uma metáfora ainda mais direta: encontrou-se uma galinha que bota ovos, mas corre-se o risco de querer ficar com os ovos e matar a galinha.
A frase pode parecer exagerada.
O problema é que várias regiões comerciais brasileiras já descobriram tarde demais que atividade econômica também faz parte da infraestrutura urbana.
Uma rua cheia de lojas não produz somente vendas. Produz circulação de pessoas, iluminação, movimento durante o dia, trabalhadores chegando e saindo, consumidores, vigilância informal e vida urbana.
Quando o comércio desaparece, às vezes sobra uma avenida urbanisticamente organizada e economicamente vazia.
Mas há um dado importante nessa história que impede qualquer discurso simplesmente pessimista sobre a Silviano Brandão.
O polo continua crescendo, mesmo atravessando intervenções urbanas, mudanças de circulação e uma revolução completa na forma como as pessoas compram, provocada pela internet e pelo comércio eletrônico, o corredor moveleiro preservou sua força.
Eliana chama atenção justamente para isso: a internet, que poderia ser vista como ameaça às lojas físicas, acabou sendo incorporada como instrumento de venda e divulgação.
“Nós usamos a internet como ferramenta e não como concorrência.”
Há lógica nessa afirmação.
Comprar um móvel continua envolvendo algo que uma fotografia numa tela dificilmente reproduz completamente. Sentar num sofá. Testar um colchão. Abrir uma gaveta. Perceber acabamento, dimensões, textura e resistência.
A loja física possui, portanto, uma vantagem que precisa aprender a explorar: a experiência.
É uma boa lição para todo o varejo.
O consumidor mudou, mas isso não significa necessariamente o desaparecimento da loja. Significa que a loja que apenas expõe mercadoria perde importância. A que oferece informação, confiança, experiência e atendimento continua tendo uma função.
E aqui aparece também a responsabilidade dos próprios empresários.
Não basta cobrar apenas do poder público.
Os comerciantes precisam modernizar fachadas, melhorar atendimento, incorporar tecnologia, profissionalizar gestão e acompanhar os novos hábitos de consumo.
Eliana reconhece essa necessidade e afirma que o próprio movimento econômico vem estimulando melhorias nas vitrines, nas lojas e na forma de atender.
É importante destacar isso porque nenhuma região comercial se preserva simplesmente por ter história.
História ajuda. Tradição ajuda. Mas consumidor não compra nostalgia.
O comerciante também precisa fazer sua parte.
Ainda assim, a principal reivindicação apresentada pela representante do Polo Moveleiro talvez seja surpreendentemente simples.
Antes de pedir obras, incentivos ou benefícios, ela fala em reconhecimento. Reconhecer que existe ali uma atividade econômica relevante para Belo Horizonte e para Minas Gerais.
Reconhecer que milhares de empregos dependem daquela concentração comercial.
Reconhecer que intervenções urbanísticas têm consequências econômicas.
E, depois do reconhecimento, vem uma segunda palavra: comunicação.
Eliana resume: “Não existe projeto sem comunicação que dê certo.”
Talvez esteja aí a parte mais importante dessa discussão.
Porque comunicação, nesse caso, não significa que o poder público apresente um PowerPoint quando o projeto já está pronto.
Significa chamar quem vive a região antes.
Ouvir comerciantes. Ouvir moradores. Ouvir trabalhadores. Ouvir especialistas em mobilidade. Ouvir consumidores.
E, depois, procurar algum equilíbrio entre interesses que muitas vezes são legítimos, mas diferentes.
O debate sobre a Silviano Brandão, portanto, é muito maior do que ciclovia, estacionamento, placa ou canteiro central.
É uma discussão sobre qual cidade queremos construir.
Belo Horizonte não precisa escolher entre comércio e urbanismo. Precisa fazer urbanismo levando o comércio em consideração.
Não precisa escolher entre mobilidade e atividade econômica. Precisa encontrar soluções que façam ambas funcionarem.
E existe uma ironia que merece ser observada.
Depois de tantas intervenções, mudanças urbanas, avanço do comércio eletrônico e transformações nos hábitos de consumo, o Polo Moveleiro continua ali.
Forte, crescendo, gerando empregos, vendendo, pagando impostos.
Talvez isso seja justamente o melhor argumento para preservá-lo.
Não congelando a Silviano Brandão no passado. Não impedindo mudanças.
Mas evitando que decisões tomadas longe das lojas destruam aquilo que décadas de empreendedorismo construíram espontaneamente.
O comerciante não pode imaginar que a rua lhe pertence.
Mas o poder público também não pode agir como se a cidade pudesse ser redesenhada numa prancheta ignorando quem produz, emprega e investe nela.
Planejamento urbano sem desenvolvimento econômico vira cenário. Desenvolvimento econômico sem planejamento urbano vira desordem.
A cidade precisa dos dois.
E o Polo Moveleiro da Silviano Brandão não está pedindo imunidade às mudanças.
Está pedindo reconhecimento antes delas.
E diálogo durante elas. Não é privilégio.
É planejamento.
E, numa cidade que tantas vezes tenta consertar depois aquilo que poderia ter discutido antes, talvez seja também uma boa economia de dinheiro, empregos e problemas.