Em ‘Misericórdia’, de Lídia Jorge, somos conduzidos ao interior de uma instituição de acolhimento para idosos no sul de Portugal, um espaço aparentemente comum, mas que se revela um espelho incômodo da forma como lidamos com o tempo, a dependência e a perda de lugar social.
A narradora observa o cotidiano daquele ambiente com um olhar atento, sem pressa e sem concessões fáceis, revelando relações marcadas por silêncios, pequenos esquecimentos, disputas sutis e uma solidão que não nasce da ausência de pessoas, mas da ausência de escuta verdadeira.
O livro não trata a velhice com doçura artificial, nem transforma o cuidado em heroísmo, porque o que está em jogo não é a compaixão como gesto nobre, mas a responsabilidade ética de reconhecer humanidade em quem já não é produtivo, veloz ou funcional aos critérios do mundo.
‘Misericórdia’ nos provoca a pensar que envelhecer, em nossa sociedade, muitas vezes significa ser deslocado para as margens, como se o valor de uma vida tivesse prazo de validade, e nos pergunta, de forma quase silenciosa, quem somos nós quando deixamos de ser úteis aos olhos dos outros.
‘Misericórdia’ é um livro que exige tempo, presença e disposição para não desviar o olhar.
