O filme ‘Foi Apenas um Acidente’ começa com uma dúvida e logo se transforma em uma pergunta incômoda. Um mecânico comum acredita reconhecer, no motorista envolvido em um acidente, o homem que o torturou no passado. A partir daí, o filme não corre atrás de certezas. Ele observa e nos apresenta pontos de vista. A dúvida vira método.
O diretor não quer saber apenas quem é o culpado, mas o que a violência deixa quando parece ter acabado. O passado não se encerra com o fim da agressão: ele ecoa, insiste, contamina o presente. O mecânico procura confirmações, outras testemunhas, outras memórias, e, quanto mais busca vingança, mais ela perde sentido.
Na vida real, condenado no Irã a não filmar, Jafar Panahi faz justamente o contrário. Ele filma com profundidade, a ponto de o silêncio gritar; até um barulho carrega dor e memória. Troca o espetáculo pelo desconforto. Cada som, cada pausa, cada olhar carrega história. No fim, Panahi oferece consciência. A construção fica a cargo de cada pessoa.
Os barulhos são uma dor que persegue, mas são reais? Há arrependimento ou apenas a espera por vingança? Como eu gostaria de ter essas respostas. O filme se chama ‘Foi Apenas um Acidente’.
