Depois de uma palestra, quase sempre ouço muitas histórias. Elas não costumam vir em voz alta, nem em forma de discurso. Chegam como quem pede licença para existir. Uma pessoa me contou que não usava blusa sem mangas por causa da marca de uma cirurgia que ela tentava esconder. Naquele dia quente, estava de camiseta.
Nas costas, uma cicatriz grande, visível, exposta como um gesto de enfrentamento. Não era descuido; era coragem. Outra pessoa, entre tantas coisas, disse que perdeu a mãe recentemente. Todos os dias depois do trabalho passava na casa dela. A rotina virou ausência; a dor, presença constante. Falou que não estava preparada para essa despedida, mesmo percebendo o cansaço da mãe nos últimos tempos.
Nessas horas, quase não cabem palavras. O olhar sustenta, o abraço acolhe, a escuta organiza um pouco o que ainda está em desalinho. Carrego comigo a certeza de que muita gente anda por aí sorrindo e produzindo enquanto guarda dores silenciosas. E, quando encontram alguém em quem confiam, essas histórias e essas dores pedem passagem.
