Elisabete é o nome dela, mas pedia para que a chamassem de Bebete. Com 75 anos, já reclamava de muitas dores no corpo e de falta de ânimo para fazer várias coisas.
Quando eu dizia que ela já tinha trabalhado demais ao longo da vida, ela respondia que sempre escutava essas desculpas, quase como uma tentativa de disfarçar que ela estava velha demais. Percebi que ela andava mais cabisbaixa, com pouca vontade de interagir. Não bebia muito líquido e comia muito pouco. Comentei com as cuidadoras que ela parecia estar entrando em depressão, e elas disseram que já estavam observando.
Um dia, quando cheguei ao lar, ela estava no quarto. Fui até sua cama e perguntei se podia segurar sua mão. Segurei. Contei algumas histórias. Ela já não falava tanto e o semblante não era sereno. Dias depois, nos despedíamos dela. Em um livro de cabeceira que deixou para mim, havia uma flor seca marcando uma página e uma anotação a lápis em letra trêmula.
Fui tarde começar a aprender a importância do desapego. Devia ter amado sem ter querido possuir, dizia ela. A palavra querido estava escrita em cor diferente. Acho que esse verbo carrega em si a memória do adjetivo, do afeto e do apego.
