Dona Ivone nunca fez as pazes com o envelhecer. Ela se lembra da ponta de dor do tempo em que era ágil e independente. Morou sozinha por muitos anos, viu os filhos crescerem e seguirem seus próprios caminhos. Havia muito orgulho nisso, havia vida em movimento.
Com o passar do tempo, as perdas foram chegando sem pedir licença. As mãos agora tremem e já não têm mais a força de antes. O corpo não acompanha a mente, que segue lúcida, atenta, cheia de memória. Um dia, ela me disse algo que ficou em mim: “É muito difícil envelhecer com lucidez e sem força”. Dizem que eu deveria agradecer por estar viva, mas agradecer o quê? Ainda assim, há algo que suspende essa dor.
Quando os filhos, os netos, os amigos chegam, a casa muda de ritmo. Ela reclama no início, dizendo que não consegue se levantar, pede que falem mais alto, mas, aos poucos, se entrega.
O olhar amolece, e a conversa aquece o tempo. Dona Ivone mesma me explicou: “O que me mantém aqui não é o corpo, nem a vontade. É o amor pelas pessoas que são tão caras para mim. É o amor por essas pessoas que também me amam”.
