Eu observava os artistas em cena, a forma como habitavam os seus personagens, como emprestavam corpo, voz e habilidade às emoções. A música vinha do fosso, invisível e presente.
Para fora dali, apenas a cabeça do maestro surgia, conduzindo uma orquestra de profissionais que são pessoas que empregam sua alma no que fazem. Em certos momentos, teatro e música deixavam de ser linguagens separadas e viravam uma só experiência, e arrepiavam. A arte tem esse poder raro de nos atravessar sem pedir licença. Ela amplia o olhar, desloca as certezas, abre frestas por onde passam perguntas e memórias.
Nem sempre oferece respostas e ainda bem; o que faz é criar espaço para sentir, pensar diferente e reconhecer no outro algo de nós. Sair do espetáculo cantando sozinho pelas ruas. A arte não resolve tudo, mas nos torna mais atentos e mais humanos. Toca na nossa humanidade que, às vezes, se esmorece diante de tanto caos. Ajuda a trazer a gente de volta e isso já muda muita coisa.
