Dona Ivone me disse certa vez que havia envelhecido, mas o que mais a entristecia não era o corpo cansado nem as limitações trazidas pelo tempo. O que mais doía era a impaciência da qual ela era vítima dentro da própria casa. Ela contava que os filhos já não tinham muita disposição para ouvir.
Quando a chamavam, respondiam de longe, levantando a voz de outro cômodo. Em outras vezes, conversavam com ela enquanto olhavam para o telefone, com os olhos presos à tela, como se a presença da mãe fosse apenas algo periférico. E não eram filhos jovens, ela fazia questão de me lembrar; já eram adultos, gente vivida, pessoas que tinham idade suficiente para entender o valor de escutar.
Com o passar do tempo, Dona Ivone foi ficando mais dependente, precisou de ajuda para se locomover e, depois, para realizar tarefas simples do dia a dia. Então, os filhos decidiram, por conta própria, levá-la para um lar de idosos. No começo, ela não gostou. Depois, disse com calma que, na vida, a gente acaba se acostumando, porque, quando não se acostuma, o desgosto vai tomando conta.
Mas havia algo que ainda a entristecia: quando surgia a vontade de ir ao banheiro e alguém a aconselhava a urinar na fralda mesmo, sob a promessa de que a trocariam depois. São pequenas situações que nos lembram de algo essencial: envelhecer não tira de ninguém o desejo de continuar sendo visto, acolhido e tratado com dignidade.
