Quando eu era adolescente, ouvia “Geni E O Zepelim”, do Chico Buarque, sem ter a menor ideia da grandeza dessa música.
Na escola onde eu estudava, havia uma cantineira chamada Dona Geni. Nós cantávamos para ela em uma brincadeira inocente, sem perceber que estávamos repetindo, em miniatura, a lógica cruel que a própria letra denuncia. Anos depois, fui compreender o contexto. A canção nasce dentro do musical Ópera do Malandro e conta a história de uma mulher marginalizada, rejeitada por todos e usada como bode expiatório de uma cidade inteira.
Geni é humilhada, apedrejada e desprezada, mas, quando um poderoso ameaça destruir a cidade, ela passa a ser útil. Ele reconsidera a destruição, dizendo que poupará a todos se puder dormir com Geni. Naquele momento, ela vira a salvação, a bendita Geni. Depois, volta a ser descartada.
Essa música fala sobre a sociedade e como ela escolhe quem merece respeito e quem pode ser ferido. Hoje, quando a escuto, não ouço apenas uma canção; vejo um retrato, e ele nem sempre é confortável.
