Perguntei à idosa de quase 90 anos. Ela olhou para mim e respondeu com um sorriso que abria espaço nas marcas do tempo que carregava no rosto. “Olha para você ver, Carmozinha é o nome de batismo”, disse ela.
Perguntei como tinha sido a infância e ela disse que foi das melhores, mesmo com tudo o que hoje poderia ser visto como dificuldade. Contou que ajudava a catar lenha para fazer as refeições e os doces da casa, que ela mesma cortava a madeira com uma cunha e que, depois de tudo isso, ainda encontrava tempo para brincar com sabugos de milho.
Quando se tornou mãe, ensinou os filhos a brincar também, usando palitos espetados em chuchus e batatas que se transformavam em uma fazenda inteira, cheia de vida, criada pela imaginação. Dona Carmozinha disse lamentar que as crianças já não brinquem como antes, porque ali havia encontro, invenção e partilha; havia corpo presente e tempo vivido com qualidade. As roupas ficavam encardidas, mas a alma seguia leve e limpa.
